O PULO DO GATO QUE NAO DEU CERTO
Flávio Bolsonaro queria chegar à Presidência da República não apenas para assumir o controle político do País. Havia também, em seu projeto, um componente de autodefesa. Afinal, seu nome está associado a investigações da Polícia Federal sobre possíveis irregularidades.
Entre os episódios que precisam ser esclarecidos estão os milhões de reais supostamente recebidos de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, instituição envolvida em um dos maiores escândalos financeiros recentes do País.
Segundo as denúncias, o dinheiro teria como finalidade financiar o filme Dark Horse, sobre a biografia de seu pai. A origem, a destinação e a regularidade desses recursos precisam ser devidamente esclarecidas.
O apoio declarado a Donald Trump também parece ir além de qualquer afinidade ideológica. É uma aposta política de conveniência, com possíveis vantagens pessoais e familiares. Uma espécie de troca de interesses.
O projeto, aparentemente, passaria por uma aproximação com Washington: o Brasil se submeteria aos interesses de Trump e, em contrapartida, a família Bolsonaro poderia contar com proteção política nos Estados Unidos, inclusive diante de eventuais problemas judiciais no Brasil.
Com a derrota eleitoral, porém, o cenário mudou. A saída de integrantes da família do País passou a alimentar especulações sobre uma possível estratégia de afastamento das consequências judiciais que ainda podem enfrentar.
Mas há uma pergunta que não pode ser ignorada: como sustentar a tese de fraude eleitoral quando dois irmãos de Flávio foram eleitos — um senador e outro deputado federal —, sua madrasta conquistou uma vaga no Senado e um tio também garantiu mandato na Câmara dos Deputados?
Isso sem falar no expressivo número de governadores e parlamentares do PL que saíram vitoriosos das mesmas eleições agora questionadas por Flávio e Eduardo Bolsonaro.
A contradição é evidente. Se as eleições foram fraudadas, como explicar que tantos aliados e familiares tenham sido beneficiados pelo mesmo processo eleitoral?
Como se vê, o pretenso pulo do gato de Flávio e Eduardo Bolsonaro não parece ter dado certo. A estratégia de internacionalizar o conflito político brasileiro e buscar respaldo em Donald Trump pode acabar produzindo o efeito contrário.
E, caso se confirmem irregularidades migratórias ou outras violações legais, ambos poderão enfrentar sérios problemas para permanecer nos Estados Unidos, inclusive com a possibilidade de deportação.
A pressão sobre Trump por seu envolvimento nessa disputa também pode crescer. Afinal, até onde o presidente americano estaria disposto a ir para comprar uma briga que não é sua?